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 Nagib Anderáos Neto
 Logosofia
 Recanto das Letras




Blog de nagib
 


Conhecimento Versus Agnosticismo

Tudo o que sei é que nada sei, teria dito Sócrates, a personagem de Platão. Eu menos, pois nem sei se nada sei, escreveu Fernando Pessoa no poema Agnosticismo Superior.

O agnosticismo só admite conhecimentos adquiridos pela razão e evita qualquer conclusão não demonstrada. Ele trata as questões metafísicas como discussões inúteis, por serem, em sua visão, realidades incognoscíveis.

Quem formulou o tema por primeira vez foi o biólogo inglês Huxley no século XIX. Em sua origem, a palavra significa aquilo que é oposto ao conhecimento. O sentido empregue pelo cientista parece ter sido de que Deus jamais poderia ser conhecido.

Os homens criaram um deus a sua imagem e semelhança, uma personagem na qual se poderia acreditar ou não. Nesse sentido, o agnóstico seria a pessoa que não aceita ou não acredita naquela invenção, pois o deus criado pelos homens expulsou-os do paraíso por terem eles provado o fruto proibido do conhecimento, quando uma inteligência esclarecida haveria de supor que somente através dele, o conhecimento, se poderia aproximar-se Dele.

Paradoxalmente, os agnósticos não acreditam também na não existência de Deus, pois da mesma forma, para eles, que a existência de Deus não pode ser provada pela razão, sua inexistência também não o pode.

São lucubrações realmente confusas. Se Deus se confunde com a própria criação, como um homem se confunde com sua vida, seus filhos, seus amigos, suas obras, Ele pode, sim, ser conhecido.

O conhecimento do Universo físico, tal como a ciência tem empreendido, é uma forma de se chegar a Ele. O conhecimento da figura humana em sua conformação psicológica e espiritual, alem da biológica, é também uma complementação daquele. Pensamentos, sentimentos e emoções não são físicos, manifestam-se através do corpo, mas são metafísicos e cognoscíveis. Se atentarmos bem, a realidade do mundo metafísico é tão ou mais eloqüente que a do físico, por ser aquele o mundo das idéias, dos ideais, dos projetos, dos sentimentos, dos pensamentos e sonhos. Ao sonhar, podemos vivenciá-lo como quando experimentamos uma maçã. Todo artista toca neste mundo ao criar a sua obra e experimenta uma sensação sublime e indizível ao fazê-lo. Qualquer ser humano ao sonhar adentra a este mundo ao tornar-se ator e espectador naquela viagem.

Para os evolucionistas, o homem e o macaco teriam uma ascendência comum. Eles descartam a existência de Deus e concebem todo o Universo como obra do acaso. Os criacionistas cristãos acreditam que Deus criou o mundo como ele é; e assim também o homem. Os criacionistas evolucionistas julgam que Deus criou e foi o início de um Universo em permanente movimento, evolução e transformação, e que está presente em sua Obra.

 Não podemos deixar de considerar que a biologia evolutiva é uma realidade e que há muito o que descobrir e aprender sobre o processo evolutivo. A realidade da evolução é incontestável; e o homem pode experimentá-la dentro de si conscientemente, e não apenas constatá-la materialmente. A evolução não se dá apenas por seleção natural. No homem ela pode ser realizada por seleção mental de pensamentos e idéias que tendam à evolução. Por tal fato, não é uma ilusão ponderarmos que somos súditos privilegiados nesta parte do Universo conhecida por termos mente e sensibilidade; capacidade de criar.

A crise que se vive, mais do que ambiental e cultural é uma crise espiritual que tem afastado o ser humano de seus irmãos pelos fanatismos, pela idolatria e pela ignorância. Tudo evolui. O homem precisa evoluir, mental e espiritualmente falando, para deixar de ser cético e crente no que desconhece. Só o conhecimento libera; e a ele não se chega senão através de processos que tendam à evolução.

Não somos um tipo de macaco que reluta admiti-lo. Somos seres humanos que evoluem biologicamente e que podem chegar a fazê-lo espiritualmente se decidirem tomar as rédeas do próprio destino e transformar-se psicológica e espiritualmente; à matemática biológica se deverá agregar a psicológica e espiritual que permitirão a complementação da evolução material. O Universo e o homem não são relativos.

O ponto de conciliação entre criacionistas e evolucionistas parece ser aquele que aponta o Universo como a face visível de Deus, e suas Leis, a invisível.

O homem nasceu para ser livre. Sua tristeza é ver-se acorrentado à escravidão mental imposta por preconceitos que sobrevivem em sua mente incompreensivelmente. Cada qual pode ser seu próprio Deus experimentando aquela liberdade e a consciência de existir. Os grilhões mentais são mais cruéis que os que sangravam os corpos de nossos antepassados que aqui foram a nossa vergonha e também a de Darwin.

 

Nagib Anderaos Neto

WWW.nagibanderaos.com.br



Escrito por nagib às 16h02
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Marquês de Condorcet

 

“Uma bela tarde em Paris, pelos fins do século XVIII, homens importantes da época reunidos na casa de distinta personagem”. Assim o escritor Bulwer Lytton, em seu romance Zanoni, ambienta um breve discurso de Condorcet, à época com grande reputação. E o nobre francês de nascimento, ali transformado em personagem, falou com toda a eloqüência:

 

“É absolutamente necessário que a superstição e o fanatismo cedam lugar à Filosofia. Os reis perseguem as pessoas, os sacerdotes perseguem as opiniões. Quando não houver reis, os homens estarão seguros; quando não houver sacerdotes, o pensamento será livre. Então começará a Idade da Razão! Igualdade de instrução, igualdade de instituições, igualdade de fortunas”.

 

“Sob a mais livre das constituições, um povo ignorante é sempre escravo”, escreveu certa vez o inspirado francês Marie-Jean-Antoine-Nicolas Caritas Condorcet.

 

Literato, filósofo, economista, matemático e político,  sucumbiu numa prisão parisiense no ano de 1794 nas mãos dos terríveis jacobinos liderados por Robespierre, depois de ter colaborado ativamente naquele movimento revolucionário que pretendia acabar com os desmandos de uma monarquia abusiva, mas acabou tornando-se o primeiro grande movimento terrorista de que se tem noticia. “A arma da Revolução é o terror”, afirmava Robespierre, o pai de todos os terroristas, transformado em personagem na “Morte de Danton” do escritor George Buchner; e a Revolução Francesa o berço dos indignados que imaginavam que o terror e a violência pudessem resolver as desavenças que a inteligência e a sensibilidade humanas não souberam conciliar; e o inspirado Marquês de Condorcet, uma das mais ilustres vitimas do terror naquele tempo.

 

Condorcet concebia a possibilidade do aperfeiçoamento humano. Foi contagiado pelo otimismo e indignação de Voltaire, de quem foi editor, contra os impostores e ditadores.Em “Esboço de Um Quadro Histórico dos Progressos do Espírito Humano”, sua visão otimista fica muito evidente, contrapondo-se ao pessimismo de alguns pensadores da época. Foi vítima do terror por ser contrário à hegemonia ditatorial dos jacobinos - impostores de estreitas luzes que até hoje têm assento em muitas instituições - que não admitiam oposição de nenhuma espécie e se refestelavam no poder indefinidamente. Considerava que o desenvolvimento humano não poderia coexistir com os preconceitos e as crenças, pois estaria alicerçado na liberdade de pensar; que o progresso coletivo dependia do progresso dos indivíduos, material e espiritualmente falando.

 

Condorcet idealizou a escola pública na França que foi modelo para todo o mundo; defendeu as liberdades da mulher, as aposentadorias e pensões, o combate às guerras, o controle inteligente da natalidade.

 

Com tantas idéias, vontade de viver e otimismo, ele morreu solitário nos porões do terror, sufocado pelo ódio dos poderosos para os quais tudo se resume no poder, na riqueza e no jogo de seus mesquinhos interesses.

 

O que os impostores e os ditadores não compreendem é que os pensamentos criados pelos Condorcet sobreviverão e chegarão às mentes de muitas pessoas no futuro, transportando os ideais de progresso e aperfeiçoamento humanos através do fomento ao estudo e à educação; e que violência alguma conseguirá calá-los. Os homens do futuro poderão liberar-se das amarras seculares que engendram os ódios, os rancores e as guerras.

 

A humanidade deve muito ao Marquês de Condorcet e haverá de honrar a sua memória comungando com os nobres ideais que inspiraram a sua vida.

 

Nagib Anderáos Neto

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Escrito por nagib às 11h59
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Os Colecionadores

 

 

 

Há pessoas que colecionam frases e pensamentos como se fossem borboletas inanimadas, palavras mortas, folhas murchas e sem vida com as quais se marcam as páginas esquecidas de livros que nunca terminam de ler. São os colecionadores de coisas inanimadas que perigam transformar-se nelas atravessando o tempo exalando tristeza e desolação.

Lembra-me um livro que nunca cheguei a terminar de ler na adolescência cujo título era “Hei de Vencer”. Durante muitos anos deixei aquela capa voltada para mim em na pequena escrivaninha imaginando que repetindo aquelas palavras diariamente eu chegaria a realizar todos os meus sonhos. A vida ensinou-me que palavras sem vida nada podem transformar; e que eu deveria criar as minhas próprias palavras infundindo-lhes vida através do esforço constante por compreender-me e o que me cerca, e realizar a impostergável tarefa do aprendizado diário.

Repetir palavras sem vida é uma tarefa triste, inútil e sem esperança.

Lá pelos idos de 1968 ganhei de presente “O Guardador de Rebanhos” de Alberto Caieiro, o misterioso heterônimo de Fernando Pessoa. Tio Paulo de Lima presenteou-me a obra que habitara sua biblioteca por muitos anos numa daquelas frias e úmidas noites paulistanas de Julho em sua casa à Rua Arthur de Azevedo. Era uma terceira edição datada de 1958 realizada pela Editora Ática de Lisboa que ele havia comprado na livraria Pedro Siciliano da Rua Dom José de Barros. Eu era um jovem que gostava de leitura e o presente era especial, do acervo pessoal daquele velho homem apaixonado pela vida e pela literatura. Devorei a obra no dia seguinte, mas a página 23 do “Guardar de Rebanhos” fixou-se para sempre em minha recordação. Havia uma flor seca e esmagada entre as páginas 22 e 23 onde o poeta dizia:

 

Ao entardecer, debruçado pela janela,

E sabendo de soslaio que há campos em frente,

Leio até me arderem os olhos

O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês

Que andava preso em liberdade pela cidade.

Mas o modo como olhava para as casas,

E o modo como reparava nas ruas,

E a maneira como dava pelas coisas,

É o de quem olha para as árvores,

E de quem desce os olhos pela Estrada por onde vai andando

E anda a reparar nas flores que há pelos campos...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza

Que ele nunca disse bem que tinha,

Mas andava na cidade como quem anda pelo campo

E triste como esmagar flores em livros

E por plantas em jarros.

 

Ao olhar e tocar aquela seca flor esmagada que até hoje está ali em meu pequeno livro, senti a angustia de Cezario Verde, um preso em liberdade a andar pela cidade onde tantas vezes se tem a impressão de que tudo é falso, artificial, antinatural.

Fernando Pessoa – na voz de seu mestre-heterônimo Alberto Caieiro – faz-nos refletir sobre a inutilidade de colecionar coisas mortas, palavras sem vida, conhecimentos inanimados.

No instrutivo livro “Diálogos”, do pensador Carlos Bernardo González Pecotche, em seu colóquio de número 31, diz o autor:

“Uma coisa é aprender pelo mero fato de saber algo novo, e outra, quando o saber é empregado para alcançar uma efetiva superação. No primeiro caso, os ensinamentos viriam a ser como as borboletas que anunciam o bom tempo, alegrando o campo florido das ilusões com o vistoso colorido de suas asas delicadas e graciosas. É fácil tocá-las e mais fácil ainda deleitar-se com elas, espetando depois seu pequeno tórax para colecioná-las sobre um cartão opaco”.

“Todavia, enquanto se faz isto, o tempo bom que elas anunciaram vai passando sem ser aproveitado, perdendo-se assim oportunidades difíceis de recuperar.”

“Consideremos, então, que enquanto os conhecimentos se mantêm ativos em alguns, aproveitando com eles o bom tempo, em outros permanecem estáticos como as borboletas que jazem espetadas na cartolina do colecionador”.

 

 

Nagib Anderáos Neto

www.nagibanderaos.com.br

 



Escrito por nagib às 16h52
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A Paciência e o Tempo

 

 

 

Não importa se vamos devagar, o importante é não parar, teria dito o pensador chinês Confúcio (551ac – 479ac), para quem transportar um punhado de terra todos os dias permite fazer uma grande montanha. Para ele, não corrigir as nossas falhas seria o mesmo que cometer novos erros. Seus ensinamentos não conformavam uma religião, senão um guia comportamental para ser posto em prática. Consta que ensinara que cada um deveria corrigir a própria conduta antes de tentar corrigir a alheia.

 

 A síndrome da urgência é uma doença da modernidade, apesar da sabedoria popular já nos ter prevenido sobre os seus prejuízos e os da impaciência. A pressa é inimiga da perfeição, costumávamos ouvir dos mais velhos. E para com quem tem urgência, devemos ter paciência.

 

O bem mais precioso da vida é o tempo que em essência é a própria vida; para ganhá-lo, seria necessário aprender a pensar, criar soluções para os problemas do dia-a-dia; idéias e pensamentos que fossem úteis a todos.

 

As pessoas apressadas, as que estão sempre a cobrar urgência de si e dos outros, são as que mais violentam o tempo e a vida, as que mais erram, pois fazem tudo superficialmente, apressadamente.

 

A natureza segue seus processos e ciclos, não tem pressa, é uma mestra exemplar.

 

As invenções humanas são uma forma de conquistar tempo livre que depois é desperdiçado por não se saber o que fazer com ele. São os paradoxos da inteligência capaz de imitar a Natureza para inventar coisas maravilhosas, e depois deixar que aquelas modernidades venham destruir o próprio homem, pelo excesso de comodidade e falta do que fazer, do que pensar, no imenso tempo que sobra.

 

O que fazer? Como liberar-se da escravidão imposta pelos ponteiros do relógio e pela urgência? Como adiantar-se ao tempo?

 

A pressa é uma doença causadora de muitos erros, acidentes e desentendimentos; uma espécie de urticária psicológica que atormenta a todos, tornando as pessoas desatentas, esquecidas, ineficazes. Levam-nas a falar demais, correr demais e ser superficial.

 

Todos vivem muito apressados, pressionados por compromissos e horários, numa louca e absurda carreira que chega a comprometer a saúde física e psicológica. Ao fazer tudo apressadamente, desesperadamente, a qualidade do que se realiza fica comprometida; a correria leva ao automatismo, à rotina, à desatenção, ao desprezo pelos detalhes que mereceriam um olhar mais detido, cuidadoso. É como se as pessoas corressem atrás de um futuro que não chega nunca; como se almejassem um final sobre o qual elas se precipitassem sem saber qual seria este desfecho.

 

A rotina como a pressa, tendências marcantes na vida do homem moderno, traz como conseqüência a depressão, o vazio e a tristeza. Fazer tudo sempre da mesma maneira, sem nenhuma variação ou renovação, faz fracassar a capacidade de iniciativa da inteligência submergindo o indivíduo no marasmo do tédio e na desconfortável sensação de inutilidade.

 

Aproveita-se o tempo fugindo da rotina, rompendo com os hábitos, as mesmices, os preconceitos. "Sejamos como os rios que renovam constantemente suas águas", escreveu certa vez González Pecotche, o criador da Logosofia.

 

Ao agir mecanicamente, rotineiramente, não se pensa no que se faz; vive-se distraída e esquecidamente. É' necessário criar o hábito de pensar; ou seja, aperfeiçoar tudo o que se faz e colocar novas atividades e novos estímulos na vida individual.

 

Não sejamos como Sísifo, o trágico herói mitológico condenado a realizar por toda a eternidade um trabalho inútil e sem esperança. Transformemos a vida renovando e aperfeiçoando os pensamentos que habitam  nossa mente; criando novas atividades e superando as próprias condições pessoais.

 

Numa cidade grande parece que todos estão a correr dos outros e de si para se entocar num fosso ou se precipitar numa depressão que os mais astutos e careiros médicos de alma não conseguem curar.

 

A pressa é uma fuga, incomoda hóspede psicológica, uma incompreensão, falta de conhecimento. Por detrás dela há um defeito que se chama impaciência, doença que danifica o sistema nervoso.

 

No livro Deficiências e Propensões do Ser Humano, González Pecotche diz que “o impaciente é um escravo do tempo; deste tempo fantasmagórico que nada tem a ver com o autêntico, que tão freqüentemente o homem dissipa em banalidades, justamente por desconhecer o seu real valor”.

 

E o autor sugere que quem padeça dessa doença se exercite no cultivo da paciência inteligente e ativa, a que “além de infundir serenidade torna o homem compreensivo, permitindo-lhe pensar com utilidade e proveito, e estar atento às suas necessidades e deveres durante todo o tempo, curto ou largo, que abarque a espera”.

 

 Em síntese, saber esperar é o mesmo que saber viver, desde que a espera não seja a passiva, a que sempre nos faz sofrer.

 

 

Nagib Anderáos Neto

www.nagibanderaos.com.br

 

 

 

 



Escrito por nagib às 12h21
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AUTOPSICOGRAFIA

 

  

 

 

 

Encontrei o papel amassado na gaveta com um texto apócrifo escrito com a minha letra há 20 anos. A data estava nítida, mas não me recordava de tê-lo escrito.

Recordei-me de um artigo do professor Deonísio da Silva que dizia ser o escritor uma espécie de médium, que não haveria muita decisão antecipada sobre o texto produzido. Os pretensos espíritos incorporados não seriam mais do que a própria pessoa a produzir literatura.

Alguns versos de Fernando Pessoa vieram-me à mente:

"O poeta é um fingidor/Finge tão completamente/Que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente".

Para o professor, todos os livros são psicografados, criações humanas que podem ter vida própria, como os seres humanos. No dizer do editor José Antonio Antonini, "eles nascem, vivem um tempo, e depois morrem. Se forem muito bons, nascem de novo em novas encadernações".

Todos os livros que escrevemos são psicografados, escritos por nosso espírito.

Lembrou-nos o professor que Goethe, ao morrer, pediu mais luz. E eu pensei que todos precisam de mais luz. E trouxe-me de volta Stephan Zweig, escritor que tanto li na juventude:

 "Há no estertor da morte uma beleza/Transcendente, ignota, luminosa/ Beleza sossegada e silenciosa, /Da luz branca da Paz, trêmula e acesa...".

Quanta luz encontramos no decorrer da vida em nossos amigos, nos livros, presenças que não morrem nunca...

Mas aquele papel amassado trazia o mistério da Esfinge que sempre me perseguiu.

"Este teu sangue metafísico/Corrente de antigas reminiscências/Traz no presente sensações incompreensíveis/ De já ter vivido e presenciado/A cena, o momento, a emoção. / Um rosto estranho se mostra familiar/ E a situação parece repetida/Filme já visto/História secular que irrompe no presente. /Novo na carne/Velho por dentro/És a expressão de um mistério indecifrado/Esfinge vivente/Em teu sonho pueril de ser etéreo, invisível/Herói desconhecido de um mundo infantil/Que ninguém, senão tu mesmo, haverá de explicar-te./

Estrondo de portas que explode na noite/Vivaldi alegre numa estação sem fim/Apartamento vazio/Alma incompreendida/Terremoto/Castelo de cartas/Noticias de jornal/Pregador solto/Vendaval "

A Esfinge Vivente reportou-me à Gisé, às areias ao lado da pirâmide onde a misteriosa escultura olhava com seu sorriso enigmático- Monalisa do deserto- na direção do nascente, para além do tempo, para o infinito.A cabeça humana sobre o corpo de animal representando a vitória do espírito sobre a brutalidade, e seu misterioso nexo com Ra, o deus egípcio do sol, a ensinar que cada ser humano deveria decifrar-se para não ser devorado por sua natureza inferior.

O papel amassado continuava em minhas mãos e eu me recordei de tê-lo escrito. Pude reviver os momentos daquela noite longínqua e invernal, ouvir novamente o zunido do vento e Vivaldi a encantar numa estação sem fim.

 

Nagib Anderáos Neto

NAGIB@SOBLOCO.COM.BR

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Escrito por nagib às 11h34
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Deus e o Conhecimento

 

 

 

 A relação do homem com a Natureza ou com Deus não pode ser sobrenatural, porque o deus sobrenatural não é natural, é uma ficção criada pelo homem. Deus não pode ser tampouco exclusividade deste ou daquele agrupamento, por ter forte relação com o homem, com qualquer homem, e com a Natureza, e com a harmonia, e também com a arte, que no dizer de Borges é um pequeno milagre. Cada sentido é um dom divino, escreveu Bandeira. E a vida deveria ser feita de arte, que é divina, como o dom de reconhecê-la, por ser a beleza uma revelação.

O espectro de Sócrates não nos abandona ao nos murmurar continuamente que o ignorante é o que acredita saber, mas não sabe, o crente numa realidade fictícia, imaginária. Sócrates foi condenado porque buscava a verdade, o conhecimento, pois abominava a ignorância. Essa busca era um princípio de conhecimento, e ele se julgava predestinado a abrir os olhos da inteligência dos jovens para que começassem a pensar por própria conta, serem verdadeiramente livres, pois a única salvação está no conhecimento.

Deus não escreve livros, escreve homens, naturezas, o Universo. Este é o Verbo Divino. Homens escrevem livros, e a linguagem humana provem daquela – a ancestral - pois visa nomear uma escritura maior.

E de onde provêm as diversas línguas criadas pelos homens?

A linguagem - as palavras que deveriam ser utilizadas para nomear O Verbo e para que os homens se unissem neste trabalho - passou a ser instrumento de dissensão. Então surgiram as línguas, os afastamentos, a linguagem decaída, a babélica.

Se a palavra escrita é o corpo físico do pensamento, para se chegar a ele – que é invisível, incorpóreo –, poderemos fazê-lo através dela.

Se o corpo físico do homem, o visível, o palpável, guarda em suas profundezas uma inteligência, uma sensibilidade, uma essência invisível e intocada, ele também - o espírito humano - assemelha-se ao pensamento, à essência invisível da palavra.

“O essencial é invisível aos olhos”, escreveu o inspirado piloto francês.

Assim, o espírito, como o pensamento – invisíveis e essenciais que são –, como os sentimentos, os sonhos e as recordações, deveria merecer de nós uma atenção maior.

E como ocupar-se mais de si mesmo? Como conhecer-se melhor?

A tarefa não é fácil, mas também não é impossível; começando por deixar de se ocupar tanto dos outros e do que nos cerca, cultivando um olhar reflexivo e auto-observador. Somos especialistas na observação do que acontece ao nosso redor, mas ausentes de nós mesmos. Não chegamos a aproveitar as lições do que nos cerca para aperfeiçoar nossa própria pessoa, que é o que mais deveria nos interessar.

Não somos muito diferentes de um pensamento que pode ser bom ou mau; que necessita reproduzir-se para sobreviver como espécie; que pode evoluir nos curtos anos de vida física.

Deus quer que o ser humano use a sua inteligência e o seu coração para se aproximar da Verdade que se confunde com o aperfeiçoamento humano. Ele não é o pai vingativo que atemoriza seus filhos e se regozija com guerras fratricidas que os insensatos dizem fazer em Seu nome.

Lutar pela liberdade própria e social, procurando respirar as verdades imanentes à natureza, e as que brotam da própria inteligência e do próprio coração, é a sensata e eloqüente postura do aprendiz que, apesar de reconhecer as suas limitações, não se conforma com a imobilidade e a submissão.

Para que não sejamos letra morta num livro inútil e sem vida, deveremos aprender a escrever a própria história com letras visíveis e invisíveis, como autores e atores, ao invés de espectadores passivos a assistir aos dramas vividos por tantos que sofrem por não pensar, por falar línguas diversas, por estar sempre a se desentender. E talvez possamos recuperar a linguagem perdida que na infância da humanidade sabíamos tão bem pronunciar.

 

Nagib Anderáos Neto

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Escrito por nagib às 10h43
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As Quimeras da Auto-ajuda

As Quimeras da Auto-Ajuda

 

 

O ser humano costuma ser muito rigoroso quando julga os semelhantes e muito complacente quando deve julgar-se. Culpa os demais por seus infortúnios. Os outros são sempre os responsáveis por tudo: familiares, amigos, o governo, o sócio, o patrão, o empregado. Dificilmente reclama de si mesmo e se coloca como alvo das próprias críticas. Assim, é muito difícil encontrar a força necessária para ajudar-se. A força existe, a possibilidade está latente; para despertá-la, será necessário mudar a conduta no dia-a-dia. A tarefa exige sinceridade, humildade, desprendimento, certa dose de coragem e perseverança.

Há pessoas que não querem mudar sua maneira de ser, querem continuar seguindo como são, estão satisfeitas. Há as que querem mudar, transformar-se, melhorar. E se é para mudar para melhor, então é melhor mudar. Uns querem deixar de ser impacientes, irritadiços, intolerantes; outros, conviver melhor com parentes e amigos, encarar com sucesso os assuntos sociais e profissionais, deixar de experimentar a tristeza e a depressão, abandonar a timidez que impede a exposição clara do pensamento e ser úteis a si mesmos e aos semelhantes, encontrando um sentido maior para a vida.

Há sempre uma melhor maneira de executar as tarefas diárias. A idéia de fazer melhor é uma forma de sair da rotina. Fazer tudo sempre do mesmo jeito, sem nenhuma variação, faz fracassar a capacidade de iniciativa submergindo a pessoa no marasmo do tédio e na desconfortável sensação de inutilidade. Fugir da rotina é uma forma de renovação e de aproveitamento do tempo, pois ganhar tempo é ganhar vida criando novas atividades, novos pensamentos, aperfeiçoando o que se vem fazendo. Ao procurar fazer melhor, aprende-se a gostar do que se faz, que é uma das maneiras de viver bem e ser feliz.

Os manuais de auto-ajuda amplamente comercializados na atualidade, apesar de sua ineficácia, demonstram que existe nas pessoas uma necessidade reprimida nesse sentido; já se compreende que nenhum mago ou guru poderá ajudá-las, senão elas próprias; que a auto-ajuda é possível quando se decide caminhar com as próprias pernas, sem nenhuma muleta, libertas dos preconceitos seculares que têm impedido o homem de conhecer-se e construir um destino melhor.

Todo o ser humano, independente de seu avanço evolutivo, tem a possibilidade de melhorar, de superar o estágio em que se encontre. Mas será necessário conhecer-se e ir transformando a maneira de ser, pensar e sentir.

Ajudar-se é possível para os que têm a coragem de se reconhecer tal como são, sem nenhuma ilusão. A partir daí, abre-se um vastíssimo campo de experiência pessoal no qual podem transformar a vida pelo autoconhecimento e aperfeiçoamento das qualidades pessoais.

Quem quiser chegar a ser o que não é deverá principiar por deixar de ser o que é, afirmou o pensador González Pecotche. Cada ser humano carrega dentro de si o segredo do êxito em todas as ordens da atividade individual; a dificuldade consiste em vislumbrá-lo e acioná-lo. E tudo se inicia com a humildade e a sinceridade no juízo que se faça sobre si aliadas à postura inteligente do aprendiz diante de tudo que lhe possa ser transmitido como ensinamento para o seu aperfeiçoamento individual.

 

Nagib Anderáos Neto

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Escrito por nagib às 15h01
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O PROTESTO DE RIMBAUD

 

 

 

 

 

 

 

A Hora dos Assassinos – o pequeno e mágico livro de Henry Miller – é um imperdível estudo sobre Rimbaud e sobre o próprio autor; uma análise profunda sobre a sociedade perdida e desorientada da qual fazemos parte.

A humanidade dividida, separada por crenças e regimes absurdos, submersa numa ignorância sem precedentes, perdeu a capacidade de se comunicar. O aparato tecnológico criou uma pseudocomunicação ruidosa, oca e sem sentido.

E ocorreu a maior de todas as tragédias: Deus desapareceu das mentes e dos corações humanos e foi substituído por ídolos de cera e de papel: o Deus morto de Nietsche e o desaparecido de Saramago.

O escritor americano amplificou o protesto de Rimbaud no século passado, triste século de guerras e destruição. E não fomos capazes de tirar proveito daquelas amargas experiências e voltamos a entregar a direção do mundo a fanáticos lunáticos do Ocidente e do Oriente.

Estamos a reeditar os grandes desastres que são as guerras promovidas por mentes corrompidas por ódios, rancores e preconceitos seculares.

A quem pertence a Terra?

Pertence aos que dispõem de maiores exércitos e marinhas. Aos que brandem o grande porrete econômico, protestou Henry Miller.

O que querem os governos?

Os governos não querem nada, querem apenas continuar sendo governo enquanto a corrupção consome vidas e gera miséria e iniqüidade.

E o mundo vai se transformando em algo murcho, sem brilho, pois negra é a hora dos assassinos que estamos vivendo.

É mesmo verdade que o homem sequer começou a pensar, mas há nas profundezas de sua consciência adormecida uma esperança.

“Se um único átomo contém tanta energia, o que dizer do homem que contém Universos de átomos? Se é a energia que ele idolatra, por que não a procura em si mesmo?”

Sim, temos que concordar com Henry Miller e com Rimbaud, “temos que ser absolutamente modernos e nos afastar das quimeras, das superstições dos dogmas para construir uma nova civilização,” e produzir luz, e não iluminação artificial, para que a humanidade do futuro não venha a protestar como o jovem poeta Rimbaud, e como Henry Miller, e como tantos outros, dizendo que tudo o que nos ensinam é falso.

 

Nagib Anderáos Neto.

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Escrito por nagib às 10h43
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O Panteísmo de Emerson e Spinoza

O Panteísmo de Emerson e Spinoza

 

 

Baruch Spinoza (1632-1677) era considerado por Ralph Waldo Emerson (1803-1882) um mestre querido. O iconoclasta sem martelo que ensinava por toda a América a ousadia da construção do destino individual foi um cientista da alegria que cedo aprendeu que o coração da Natureza batia em uníssono com o seu. O panteísmo de Spinoza encontrara um eco profundo no coração do americano que considerara que cada indivíduo possuía um capital espiritual próprio voltado para a beleza, a alegria, a amizade e a paz.

Emerson gostava de falar para a gente simples que o compreendia com o coração. “Cada homem, cada parte humana dessa entidade divina conhecida como humanidade, é um Deus em formação”, escrevera; e “este mundo pertence aos alegres, aos enérgicos, aos ousados”.

O panteísmo de Spinoza considerava que Deus e a Natureza são a mesma coisa; que o Universo é a realização de Deus, sua face visível, e os seus seres singulares são a manifestação de uma única substância.

Se a substância essencial e original do monismo de Spinoza está presente em tudo quanto existe, especialmente representada no homem, o amor fraterno deveria surgir no coração de todos os homens como resultado do sentimento panteísta. Onde não existe amor, não há evolução, não há ética nem moral.

“Não deverei eu chamar de Deus o Belo que diariamente se mostra para mim no dom da Amizade?”, escreveu Emerson.

Ao constatar que as grosseiras muralhas dos defeitos humanos afastam os homens criando as inimizades, não podemos deixar de considerá-los como as causas do afastamento do homem de Deus, que está magnificamente representado em cada inteligência e sensibilidade humanas que têm sido entorpecidas e petrificadas pela ignorância e pelos preconceitos.

Lutar pelo aperfeiçoamento psicológico pessoal, identificando e combatendo os defeitos que impedem o cultivo de amizades, como a intolerância, a vaidade, a ambição e o egoísmo, entre outros, é única forma inteligente de cultivar o panteísmo que aproxima o ser humano de seus semelhantes, da Natureza e de Deus, para viver o aforismo axiomático de Abrahan Lincoln:

“Quando faço o bem, sinto-me bem. Quando faço o mal, sinto-me mal; esta é a minha religião”.

A síntese do panteísmo de Emerson é que “a essência de Deus é o amor”, e “um amigo é uma obra prima da Natureza”.

“O único modo de ter amigos é ser amigo”.

 

Nagib Anderáos Neto

www.nagibanderaos.com.br

 



Escrito por nagib às 10h42
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O Pensamento Próprio

 

 

 

O filósofo alemão Schopenhauer (1788 – 1860) escreveu certa vez que quem lê demais não tem tempo para pensar; que a maioria dos livros escritos é ruim, meras peças inventadas para encher os bolsos de livreiros, editores e escritores duvidosos; que ao ler demais se está a absorver pensamentos alheios de escritores, no geral medíocres, impedindo-se de criar os próprios, frutos da inspiração e inteligência individuais, entretendo-se com pensamentos já pensados por outras pessoas, perdendo o contato com a realidade, como o que passa a vida a ler livros sobre países desconhecidos, lugares fantásticos, sem nunca ter viajado para conhecer pessoalmente aquilo que outros experimentaram.

O conhecimento tem a ver com a experimentação, mas a informação sobre aquilo que se vai conhecer também é uma fase importante no processo de aquisição de um conhecimento. Antes de visitar um país desconhecido, o viajante deve se informar sobre sua história e cultura, consultar mapas e observações que lhe serão úteis. A temeridade de uma viagem sem preparo pode ser tão perigosa ou inútil quanto imergir em informações sobre lugares que jamais se conhecerá.

A leitura pode ser uma forma de felicidade ou infelicidade segundo o seu conteúdo e a posição do leitor; uma forma de alheamento, distração estéril, afastamento da realidade. Os livros podem conter mentiras, preconceitos; nenhum deles se aproxima do grande livro que é o Universo, verdade absoluta, realidade eloqüente, cor, luzes e brilhos indescritíveis. A palavra humana é um recurso do pensamento, sua vestidura material, comunica e afasta, une e desune.

 Uma coisa é a informação, a ilustração, e outra o conhecimento, culminação de um processo mental que passa pela informação e experiência. O que se lê é alheio; o que se pensa é próprio. Quem lê demais não tem tempo para pensar. Quem lê de menos terá muita dificuldade em fazê-lo.

Para se ter as próprias idéias e criar pensamentos é necessário pensar, dedicar um tempo para esta atividade criadora. O pensamento próprio é para o espírito como o ar para os seres vivos. O homem em evolução deve criá-los e dosar a absorção dos alheios. Ler demais é tão prejudicial quanto ler de menos. Aceitar passivamente pensamentos alheios, ao invés de criar os próprios, imobiliza a inteligência.

O que eu quero ser? O que eu quero fazer? As respostas devem se converter em pensamentos próprios que nortearão um dia, um ano, uma existência.

A verdadeira evolução é a da consciência. Poucas pessoas pensantes, conscientes, poderiam mudar o futuro do planeta. Para evoluir é necessário pensar. E para pensar com liberdade é preciso desprender-se dos preconceitos que acorrentam a inteligência e endurecem o coração. O maior dos preconceitos é sentir-se incapaz, dependente, predestinado a ser o que se é sem possibilidades de mudanças.

No dizer de Schopenhauer, no fundo, apenas os pensamentos próprios são verdadeiros e têm vida, pois somente eles são entendidos de modo autêntico e completo. Pensamentos alheios, lidos, são como sobras da refeição de outra pessoa, ou como roupas deixadas por um hóspede da casa.

 

Nagib Anderáos Neto

www.nagibanderaos.com.br

neto.nagib@gmail.com

 



Escrito por nagib às 10h32
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